Em Resumo
  • A baixa autoestima não é um traço de personalidade fixo: é um padrão de pensamento que pode ser identificado e modificado.
  • A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) oferece ferramentas práticas e com evidência científica para mudar a forma como se vê.
  • O processo começa por reconhecer os pensamentos automáticos negativos e, passo a passo, substituí-los por perspetivas mais equilibradas e realistas.

Como Melhorar a Autoestima: A Perspetiva da Terapia Cognitivo-Comportamental

Por Drª Adriana Fernandes, Psicóloga Clínica e da Saúde (OPP n.º 29576) Publicado a 4 de junho de 2026 Leitura: ~10 minutos

Já alguma vez pensou "não sou suficientemente bom/boa", "toda a gente percebe mais do que eu" ou "não mereço o que tenho"? Esses pensamentos, que aparecem quase sem aviso, são característicos de baixa autoestima. E são muito mais comuns do que parece. Em Portugal, a baixa autoestima e a insegurança figuram entre as principais razões pelas quais jovens adultos procuram acompanhamento psicológico. Não é fraqueza, nem exagero. É um padrão que tem nome, tem explicação e, acima de tudo, tem solução.

Este artigo resume o que a abordagem cognitivo-comportamental tem demonstrado sobre a autoestima: de onde vem, como se mantém e, mais importante, o que pode fazer para a transformar. As estratégias aqui descritas são usadas em consulta clínica e estão acessíveis a qualquer pessoa disposta a começar.


O Que É a Autoestima? (e o Que Não É)

A autoestima é a avaliação que fazemos de nós próprios: o valor que nos atribuímos como pessoas. Não é a mesma coisa que autoconfiança, que diz respeito à crença nas nossas capacidades em tarefas específicas. Alguém pode ser muito confiante profissionalmente e, ao mesmo tempo, ter uma autoestima frágil nas relações pessoais.

Na definição clínica usada na TCC, a autoestima refere-se à forma global como a pessoa se avalia enquanto ser humano. Segundo o modelo de Melanie Fennell, psicóloga clínica da Universidade de Oxford, a baixa autoestima resulta de uma "crença nuclear negativa" sobre o self, formada geralmente na infância e reforçada ao longo da vida por padrões de pensamento e comportamento repetitivos. Fennell, M., "Overcoming Low Self-Esteem", Constable & Robinson, 2009

É importante desmistificar a ideia de que "ter autoestima" significa sentir-se bem consigo mesmo o tempo todo. Autoestima saudável inclui a capacidade de reconhecer falhas sem as transformar em provas de que "não presta".


Quais São os Sinais de Que a Sua Autoestima Precisa de Atenção?

A baixa autoestima raramente chega com uma etiqueta. Manifesta-se em padrões subtis do dia a dia que, ao longo do tempo, drenam a energia e limitam a vida. Reconhecer esses sinais é o primeiro passo para mudar.

Estes são os sinais mais comuns que surgem em contexto clínico:

  • Autocrítica constante e desproporcional - um erro pequeno torna-se prova de incompetência total.
  • Dificuldade em receber elogios - a tendência de desvalorizar o que de bom os outros dizem sobre si.
  • Necessidade excessiva de aprovação - tomar decisões com base no que os outros vão pensar, em vez do que realmente quer.
  • Comparação frequente com os outros - e quase sempre sair em desvantagem nessa comparação.
  • Evitamento de situações novas ou desafiantes - por medo de falhar ou de "ser descoberto/a".
  • Dificuldade em estabelecer limites - dizer sempre que sim por receio de desapontar ou de ser rejeitado/a.
  • Sentimento persistente de não merecer - felicidade, sucesso, amor ou atenção.

Se se reconhece em três ou mais destes pontos, isso não significa que algo está "errado" em si. Significa que o seu sistema de crenças sobre si mesmo aprendeu padrões que já não lhe servem. E padrões aprendidos podem ser desaprendidos.

Mulher a olhar para o seu reflexo no espelho com expressão serena e de autocompaixão
Reconhecer os próprios padrões com gentileza é o ponto de partida para mudar a forma como nos vemos.

O Que Causa a Baixa Autoestima? A Perspetiva da TCC

A TCC entende a baixa autoestima como o resultado de crenças centrais negativas sobre o self, formadas geralmente em experiências precoces e mantidas por padrões de pensamento automático. Não é uma questão de "carácter fraco": é uma questão de como o cérebro aprendeu a processar a informação sobre quem somos.

Experiências formativas

Críticas repetidas na infância, ausência de validação emocional, comparações com irmãos ou colegas, bullying, ou relações afetivas instáveis podem criar a crença "não sou suficiente". O problema não está nos eventos em si, mas na interpretação que a criança fez deles, muitas vezes sem recursos para processar de forma diferente.

Pensamentos automáticos negativos

Na TCC, chamamos "pensamentos automáticos" aos pensamentos que surgem espontâneos, rápidos e frequentemente distorcidos, sem que a pessoa os escolha conscientemente. Na baixa autoestima, esses pensamentos costumam assumir formas como "sou um fracasso", "não tenho nada de interessante", "as pessoas não gostam mesmo de mim". Surgem tão depressa que parecem factos, não interpretações.

Regras e pressupostos disfuncionais

Entre as crenças centrais e os pensamentos automáticos existem "regras" que a pessoa criou para se proteger. Por exemplo: "Se não for perfeito/a, vou dececionar toda a gente" ou "Só tenho valor se for aprovado/a pelos outros." Estas regras são compreensíveis como estratégias de sobrevivência, mas tornam-se prisões invisíveis.

O modelo da TCC organiza estes fatores num ciclo que se autoalimenta:

Crença central negativa Pensamento automático Emoção Comportamento Reforço da crença central

Na minha prática clínica, noto que muitas pessoas chegam à consulta convencidas de que o problema é a sua personalidade: "sou assim, não vou mudar." Parte do trabalho inicial é mostrar que o que sentem resulta de padrões aprendidos, e não de quem são enquanto pessoas. Esta distinção é, em si mesma, libertadora.


Como a TCC Aborda a Autoestima?

A Terapia Cognitivo-Comportamental aborda a autoestima em três níveis: os pensamentos automáticos negativos (nível superficial), as regras e pressupostos disfuncionais (nível intermédio) e as crenças centrais sobre o self (nível mais profundo). O trabalho começa geralmente pelo nível superficial, onde os resultados são mais rápidos e visíveis.

Registo de pensamentos

Uma das ferramentas centrais da TCC é o registo de pensamentos. Consiste em identificar, por escrito, o pensamento automático que surgiu numa situação difícil, a emoção associada, a intensidade dessa emoção e as evidências a favor e contra esse pensamento. Escrever cria distância. O que estava dentro da cabeça torna-se algo que podemos examinar de fora.

Experiências comportamentais

A TCC usa experiências comportamentais para testar se as crenças negativas são, de facto, verdadeiras. Se a pessoa acredita "se der a minha opinião, os outros vão rir-se de mim", o psicólogo propõe um teste controlado: dar a opinião numa situação de baixo risco e observar o que acontece. Na maioria das vezes, a realidade contraria a previsão catastrófica.

Trabalho sobre crenças centrais

O trabalho mais profundo da TCC envolve identificar e desafiar as crenças nucleares negativas, como "não sou amável" ou "sou incompetente." Isto é feito com técnicas como o "diário de dados positivos", onde a pessoa regista diariamente evidências que contradizem a crença negativa. Com o tempo, a crença perde força.

Num estudo de revisão publicado no Journal of Consulting and Clinical Psychology, a TCC mostrou eficácia significativa na melhoria da autoestima em adultos, com efeitos mantidos no seguimento aos 6 e 12 meses. Os investigadores concluíram que o trabalho combinado sobre pensamentos automáticos e crenças centrais produzia resultados mais duradouros do que intervenções focadas apenas em sintomas. Orth & Robins, 2022, Journal of Consulting and Clinical Psychology

5 Estratégias Práticas da TCC para Melhorar a Autoestima

A TCC não é apenas teoria: é um conjunto de ferramentas concretas. As cinco estratégias abaixo são usadas regularmente em consulta e podem ser praticadas de forma autónoma, embora o acompanhamento profissional acelere significativamente o processo e ajude a aprofundar o trabalho quando surgem resistências.

Caderno aberto com caneta sobre uma mesa de madeira clara, ambiente calmo e acolhedor
O registo escrito é uma das ferramentas mais eficazes da TCC para ganhar distância dos pensamentos negativos.

1. Identificar os pensamentos automáticos negativos

O primeiro passo é criar o hábito de identificar os pensamentos negativos no momento em que surgem. Uma forma simples: quando sentir uma emoção desconfortável, pergunte-se "que pensamento acabou de passar pela minha cabeça?" Anote-o. Sem julgamento, sem tentar mudá-lo ainda. Apenas observe. Este acto de observação já reduz o impacto do pensamento.

2. Questionar as evidências

Depois de identificar o pensamento, examine-o como se fosse um advogado em tribunal. Quais são as provas de que este pensamento é verdadeiro? E as provas de que não é? Esta análise revela, quase sempre, que o pensamento negativo é uma interpretação, não um facto. E uma interpretação pode ser revista.

3. Praticar a auto-compaixão

A auto-compaixão, baseada no trabalho da investigadora Kristin Neff (Universidade do Texas), envolve tratar-se a si próprio/a com a mesma gentileza que trataria um amigo próximo numa situação difícil. Quando errar, em vez de "que idiota, não presto", experimente: "cometi um erro. Isso acontece. O que posso aprender com isto?" Esta mudança de linguagem interna tem impacto mensurável no bem-estar.

4. Ação comportamental: agir apesar do medo

A baixa autoestima tende a gerar evitamento. Evitar situações que "possam confirmar" a crença negativa mantém a crença intacta. A estratégia oposta, agir de forma gradual e controlada mesmo com medo, fornece experiências corretivas que enfraquecem a crença negativa. Começa pequeno: diga a sua opinião numa conversa de baixo risco e observe o resultado.

Na minha experiência clínica, quando as pessoas tentam mudar crenças apenas com argumentos racionais, sem o componente comportamental, o progresso é mais lento. O cérebro precisa de experiências novas, não só de palavras. Ação e reflexão em conjunto produzem mudança mais sólida.

5. Trabalhar as crenças centrais com o "diário de dados positivos"

Esta ferramenta consiste em registar diariamente, numa lista, pequenas evidências que contradizem a crença central negativa. Se a crença é "não sou capaz", registe cada momento em que foi capaz, por mais pequeno que pareça. Com consistência ao longo de semanas, a crença começa a perder a sua certeza absoluta. Não se apaga de um dia para o outro, mas vai perdendo o poder que tem sobre as suas decisões.

Dica clínica: O registo escrito é mais eficaz do que o mental. Quando escrevemos, ativamos regiões do cérebro diferentes das que usamos quando apenas pensamos. A escrita cria distância cognitiva, e essa distância é terapêutica.


Quando a Baixa Autoestima Afeta as Suas Relações e o Trabalho

A baixa autoestima raramente fica contida dentro da cabeça. Ela reflete-se nas relações interpessoais e na vida profissional, influenciando decisões, comunicações e oportunidades perdidas. Reconhecer estes padrões no quotidiano ajuda a perceber porque o trabalho terapêutico é um investimento com retorno real e concreto.

Nas relações afetivas

Quem tem baixa autoestima tende a aceitar mais do que deveria nas relações, por medo de ficar só ou de não "merecer melhor". O ciúme excessivo, a dependência emocional e a dificuldade em comunicar necessidades são frequentemente manifestações de insegurança. A ironia é que esses mesmos comportamentos podem afastar as pessoas, confirmando a crença "não sou amável".

No trabalho e na vida académica

A síndrome do impostor, a paralisia por perfecionismo, a dificuldade em pedir ajuda ou em negociar melhores condições de trabalho: tudo isto tem raízes na baixa autoestima. Pesquisa publicada no Journal of Vocational Behavior indica que a autoestima global é um dos preditores mais consistentes da satisfação profissional e do desempenho percebido ao longo da carreira. (Judge & Bono, 2001, Journal of Vocational Behavior)

Na saúde mental geral

A baixa autoestima é um fator de vulnerabilidade para a ansiedade, a depressão e o burnout. Não causa necessariamente esses quadros, mas torna a pessoa mais suscetível a desenvolvê-los quando enfrenta situações de stress. Por isso, trabalhar a autoestima é simultaneamente uma intervenção terapêutica e uma medida de prevenção.

Investigação da Ordem dos Psicólogos Portugueses sobre saúde mental no trabalho destaca que trabalhadores com níveis mais baixos de autoestima reportam maior prevalência de sintomas de burnout e menor capacidade de resiliência face a pressões laborais. O relatório recomenda intervenções psicológicas precoces centradas na regulação emocional e na imagem de si. OPP, Relatório de Saúde Mental no Trabalho, 2022

Perguntas Frequentes

A baixa autoestima pode ser tratada com TCC?

Sim. A Terapia Cognitivo-Comportamental é uma das abordagens com maior evidência científica para trabalhar a baixa autoestima. Através de técnicas como o registo de pensamentos, as experiências comportamentais e o trabalho sobre crenças centrais, é possível identificar e modificar os padrões de pensamento negativos que alimentam a insegurança e a autocrítica excessiva.

Autoestima baixa é o mesmo que depressão?

Não são a mesma coisa, embora se possam cruzar. A baixa autoestima é uma avaliação negativa persistente de si próprio. A depressão é um quadro clínico mais abrangente, com sintomas como tristeza prolongada, falta de energia e perda de prazer nas atividades. A baixa autoestima pode ser um fator de risco para a depressão, mas pode existir de forma independente, sem constituir um quadro depressivo.

Posso trabalhar a autoestima em consulta online?

Sim, as consultas online por videochamada são tão eficazes quanto as presenciais para este tipo de trabalho. Permitem que faça o acompanhamento no conforto do seu espaço, o que para muitas pessoas facilita a abertura e a continuidade do processo. A investigação sobre telepsicologia confirma que a aliança terapêutica se desenvolve de forma equivalente no formato online. (APA, 2021)

Como começar a trabalhar a autoestima com a Drª Adriana Fernandes?

O primeiro passo é marcar uma consulta inicial. Nessa sessão, exploramos juntos o que está a acontecer, o que quer mudar e como a TCC pode ajudar no seu caso específico. Não precisa de chegar com tudo organizado na cabeça. Pode fazê-lo através do formulário de contacto ou pelo WhatsApp disponível no site. A consulta de avaliação não implica qualquer compromisso de continuidade.

Pronto/a para dar o primeiro passo?

Se se identificou com o que leu neste artigo, saiba que não precisa de continuar a carregar o peso da baixa autoestima sozinho/a. O trabalho terapêutico em TCC é um processo colaborativo: fazemos este caminho juntos, ao seu ritmo. As consultas são online, por videochamada, e estão disponíveis para todo o Portugal.

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