Resumo rápido
- As experiências da infância, sobretudo a relação com as figuras de vinculação, moldam crenças sobre nós próprios, sobre os outros e sobre o mundo, que continuam ativas na idade adulta.
- Isto não significa que o passado determine o presente de forma fixa: a investigação em psicologia mostra que estes padrões podem ser reconhecidos e trabalhados, mesmo décadas depois.
- A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) ajuda a identificar estes padrões precoces e a construir, de forma ativa, novas formas de pensar, sentir e relacionar.
Como as Experiências da Infância Influenciam os Adultos que Somos
“Sou assim desde sempre.” É uma frase comum em consulta, dita por quem sente que um padrão (de ansiedade, de autocrítica, de dificuldade em confiar nos outros) sempre fez parte de si, como se fosse um traço de personalidade imutável. Mas, na maioria dos casos, estes padrões têm uma origem: começaram a formar-se muito cedo, nas primeiras relações e experiências da infância.
Este artigo explica o que a investigação em psicologia diz sobre a forma como a infância molda o adulto que nos tornamos, que mecanismos estão envolvidos e, sobretudo, até que ponto é possível reconhecer e transformar estes padrões hoje.
- O que é a teoria da vinculação e porque é central para compreender o desenvolvimento emocional
- Como as experiências precoces formam crenças que continuam ativas na idade adulta
- A diferença entre ser influenciado pelo passado e ser determinado por ele
- Como reconhecer, no presente, padrões que têm origem na infância
- Como a TCC ajuda a trabalhar estes padrões
O Que Diz a Investigação Sobre a Infância e o Adulto que Nos Tornamos?
A psicologia do desenvolvimento, sobretudo a partir do trabalho do psiquiatra John Bowlby e da psicóloga Mary Ainsworth sobre a teoria da vinculação, mostra que a qualidade da relação com as primeiras figuras de referência (geralmente os pais ou cuidadores) molda profundamente a forma como a criança aprende a regular emoções, a confiar nos outros e a ver-se a si própria.
Bowlby e Ainsworth descreveram diferentes “estilos de vinculação”: segura, ansiosa, evitante e desorganizada, que se formam nos primeiros anos de vida, consoante a disponibilidade, consistência e sensibilidade emocional dos cuidadores. Estes estilos não são um diagnóstico nem uma sentença, mas um padrão de base que tende a repetir-se nas relações futuras, incluindo na idade adulta.
Não se trata de procurar culpados. A maioria dos cuidadores faz o melhor que pode com os recursos emocionais, financeiros e psicológicos que tem disponíveis no momento. Compreender a origem de um padrão não é sobre apontar responsabilidades, é sobre ganhar clareza para poder mudar o que, hoje, já não serve.
Como as Experiências Precoces Moldam Crenças sobre Nós Próprios
Para além da vinculação, a infância é também o período em que se formam aquilo que a Terapia Cognitivo-Comportamental, nomeadamente a abordagem de Esquemas desenvolvida pelo psicólogo Jeffrey Young, chama de “esquemas precoces desadaptativos”: crenças profundas e duradouras sobre nós próprios, formadas a partir de necessidades emocionais que não foram adequadamente satisfeitas na infância.
Exemplos comuns incluem a crença de que “não sou suficiente”, “não posso confiar nos outros”, “tenho de ser perfeito para ser aceite” ou “as minhas necessidades não são importantes”. Estas crenças formam-se muito antes de termos linguagem ou capacidade de as questionar racionalmente, e é por isso que, mesmo em adultos muito capazes e bem-sucedidos, continuam a influenciar emoções e comportamentos de forma quase automática.
É importante perceber que estes esquemas não surgem apenas de experiências menos positivas. Podem formar-se também em ambientes aparentemente “normais”, onde faltou validação emocional consistente, onde houve expectativas excessivas, ou onde a criança teve de se adaptar demasiado cedo às necessidades dos adultos à sua volta.
Vinculação na Infância e Padrões Relacionais na Idade Adulta
Um dos efeitos mais estudados da infância sobre a vida adulta é a forma como nos relacionamos.
Quem desenvolveu uma vinculação mais ansiosa em criança tende, em adulto, a precisar de confirmação constante numa relação e a temer o abandono. Quem desenvolveu uma vinculação mais evitante tende a desconfiar da intimidade e a afastar-se quando a relação se aproxima demasiado. Quem teve uma vinculação mais segura tende a sentir-se mais confortável tanto com a proximidade como com a autonomia.
Estes padrões não aparecem apenas nas relações amorosas, manifestam-se também na amizade, na relação com chefias e colegas de trabalho, e na forma como se lida com a autoridade e com o conflito. Reconhecer o próprio padrão de vinculação é, muitas vezes, um dos momentos mais reveladores do processo terapêutico.
A Infância Determina o Destino? O Que a Investigação Diz
Esta é, talvez, a pergunta mais importante, e a resposta é tranquilizadora: não. A investigação em neurociência mostra que o cérebro mantém plasticidade ao longo de toda a vida, o que significa que novos padrões de pensamento e de relação podem ser aprendidos em qualquer idade.
A psicologia da vinculação descreve mesmo um conceito chamado “vinculação segura conquistada” (earned secure attachment): pessoas que, apesar de terem tido uma vinculação insegura na infância, desenvolveram, já na idade adulta, através de relações reparadoras e de trabalho terapêutico, um padrão de vinculação mais seguro e estável.
A infância influencia, de forma significativa, o ponto de partida. Não determina, de forma irreversível, o ponto de chegada.
Como Reconhecer Padrões da Infância que Ainda o(a) Afetam Hoje
Alguns sinais de que um padrão com origem na infância continua ativo no presente:
- Reações emocionais desproporcionais em determinadas situações, sobretudo em contextos de rejeição, crítica ou abandono
- Dificuldade em confiar nos outros, mesmo quando não há motivo concreto para desconfiança
- Necessidade excessiva de agradar ou de evitar conflito a todo o custo
- Sensação de que o próprio valor depende do desempenho ou da aprovação alheia
- Repetição do mesmo tipo de dinâmica em relações diferentes, como se houvesse um “padrão” a repetir-se
Reconhecer estes sinais não é, por si só, suficiente para os mudar, mas é o primeiro passo necessário.
Como a TCC Ajuda a Trabalhar Estes Padrões?
A Terapia Cognitivo-Comportamental, especialmente quando integra o trabalho sobre esquemas precoces, ajuda a identificar a origem destes padrões e a desenvolver formas mais adaptativas de pensar, sentir e agir.
Identificar o Padrão e a Sua Origem
O primeiro passo é tornar visível aquilo que, até então, funcionava de forma automática: reconhecer o padrão, a crença que o sustenta e, quando possível, a experiência que lhe deu origem.
Questionar a Validade da Crença no Presente
Uma crença formada aos sete anos, perante os recursos emocionais de uma criança, raramente é uma avaliação precisa da realidade de um adulto. A TCC ajuda a examinar se essa crença continua a fazer sentido à luz da vida atual.
Praticar Novas Formas de Responder
Mudar um padrão não acontece só pela compreensão, acontece também pela prática repetida de novas formas de reagir em situações que, no passado, ativariam o padrão antigo. Pequenas experiências corretivas, repetidas ao longo do tempo, vão reescrevendo a resposta automática.
Quando Procurar Ajuda Profissional?
Vale a pena procurar apoio psicológico se:
- Sente que repete o mesmo tipo de padrão doloroso em relações diferentes
- Tem reações emocionais que parecem desproporcionais face à situação presente
- Sente que a forma como se vê a si próprio(a) foi fortemente marcada por experiências da infância
- Quer compreender melhor a origem de determinados comportamentos ou emoções recorrentes
A terapia oferece um espaço seguro para explorar estas origens, sem julgamento, e para construir, de forma ativa, novos padrões mais saudáveis.
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Perguntas Frequentes sobre a Infância e a Vida Adulta
Trabalhar a infância em terapia significa culpar os pais?
Não. O objetivo não é atribuir culpa, mas compreender a origem de determinados padrões para poder trabalhá-los no presente. É possível reconhecer o impacto de certas experiências sem que isso implique julgamento sobre quem cuidou de nós.
É preciso ter tido uma infância “traumática” para que isto se aplique?
Não. Mesmo ambientes aparentemente estáveis podem gerar crenças limitantes, sobretudo quando faltou validação emocional consistente ou houve expectativas excessivas. Não é preciso um evento dramático para que um padrão se forme.
A terapia online é eficaz para este tipo de trabalho?
Sim. O formato por videochamada mantém a mesma estrutura e eficácia da terapia presencial para este tipo de trabalho sobre padrões emocionais e relacionais.
Como marcar consulta com a Drª Adriana Fernandes?
Através do formulário de contacto no site ou por WhatsApp. Consultas por videochamada, com disponibilidade para todo o país.
Referências
- Ainsworth, M.D.S., Blehar, M.C., Waters, E. & Wall, S. (1978). Patterns of Attachment: A Psychological Study of the Strange Situation. Lawrence Erlbaum Associates.
- Bowlby, J. (1969). Attachment and Loss, Vol. 1: Attachment. Basic Books.
- Main, M. & Solomon, J. (1990). Procedures for identifying infants as disorganized/disoriented during the Ainsworth Strange Situation. In M.T. Greenberg, D. Cicchetti & E.M. Cummings (Eds.), Attachment in the Preschool Years (pp. 121–160). University of Chicago Press.
- Roisman, G.I., Padrón, E., Sroufe, L.A. & Egeland, B. (2002). Earned-secure attachment status in retrospect and prospect. Child Development, 73(4), 1204–1219.
- Young, J.E., Klosko, J.S. & Weishaar, M.E. (2003). Schema Therapy: A Practitioner's Guide. Guilford Press.
Pronta para compreender os seus próprios padrões?
Entender de onde vêm certos padrões é o primeiro passo para os poder mudar. A terapia oferece um espaço seguro para essa exploração, ao seu ritmo.
A Drª Adriana Fernandes, Psicóloga Clínica e da Saúde (OPP n.º 29576), acompanha adultos por videochamada em Portugal e no estrangeiro. A abordagem é baseada em TCC, com foco em padrões emocionais e relacionais, ansiedade, autoestima e burnout.
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